Wednesday, April 28, 2004

Carta aberta à Isabel Figueira

Cara menina

Apresento-me. Espero a sua consideração mesmo quando vir que na apresentação não derrubarei o biombo do anonimato. Desejo que tão atabalhoado começar não afaste os olhos felinos (castanhos, mas felinos) desta missiva.
Apresento-me: Sou um homem comprometido, cioso da sua monogamia. Considero esta mais uma obrigação que uma virtude, mas no fundo declaro-a como obrigação virtuosa, não forçada e consciente. Não estou apaixonado pela menina e isso nem explico nem descrevo já tão facilmente. A incontrolabilidade das nossas paixões não se submete aos mesmos padrões infalíveis com que anunciei a minha monogamia. Para refrear-me torno física, química, como a menina preferir, a fidelidade que me imputo espiritualmente, intelectualmente, culturalmente.
Escuso-me a dizer se a desejo ou não. Escuso-me por ir antes referir outra vontade, essa sim, que me induz a escrever-lhe. Acho-a bonita, não perfeita. Acho-a bonita nas suas incorrecções faciais, que de incorrectas só têm a evasão aos cânones de harmonia clássica. Acho-a perfeita e correcta na sua originalidade afunilada de belos olhos, quais mandorlas, rosto afunilado. Não ironizo, é harmoniosa a menina, é bela!
Ao seu corpo não posso aludir imperfeições. Das partes que as fotografias não ousam revelar, felizmente poucas, só posso augurar primor continuado.
É boa, a menina. Não quero que me entenda grosseiro, mas sincero. Não desboco o que sinto, antes o que todos sentem e comentam entre si. Conversas de mortais que a menina, de certo, fará ideia. Por isto não desgasto o manancial mais incorruptível das minhas palavras e dirijo-me a si na mais natural das expressões corriqueiras potenciada, por mim agora, de elogiosidade: É boa, a menina.
Escapo aos preâmbulos e avanço com o pedido: Desejo abraçá-la. Um simples abraço, uma união de dois amigos que matam saudades enquanto recordam o toque da pele do outro. Um oferecer de contornos físicos por questões de amizade. Uma oferta e recolha de alentos.
Não sou tarado. O abraço não é um fetiche. Desconheço-lhe prazer explicitamente sexual, ou pelo menos desconheço-o desde que abandonei a mais libidinosa adolescência. O abraço que lhe proponho é de exploração cordial, de puro empirismo táctil descambado em amizade. Não sou tarado, sou monogâmico convicto, professo a fidelidade. É de trajes resplandecentes no seu alvor que lhe proponho o meu pretendido amplexo. Não sou tarado, sou asseado, saudável. É de consciência psicológica e sem carências físicas que he proponho o meu pretendido amplexo.
Menina, espero resposta.

Atenciosamente seu

Informação

Isto não é um blogue. Só escolho este formato por ser mais fácil de editar e publicar. Em princípio só haverá mais outro post, desta feita a "carta aberta dirigida à Isabel Figueira".

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O Euro-deputado que nada quer com o Euro 2004, a Causa com letra maiúscula de um maradona com letra minúscula, o antropólogo heterossexual do FCP que tem uma atracção pelo Maldini, o simpático judeu que se deslumbra com livros e com o Deco, os irmãos Karamazov, a única instituição com classe que se assemelha, foneticamente, ao Bloco de Esquerda, a Amália Rodrigues dos blogues (a grande senhora) , ex Coluna-Infame com carreira a solo, o do templeite aborrecido, o Real Madrid dos blogues, a Madonna Louise Veronica Ciccone dos blogues, o cruzamento entre Rachmaninoff e Chalana , o carteirista de Hamelin, Lars Frederiksen, Lutero e Linda de Suza, e já me fartei de linques.